Pomar aproxima hortelões

Um pomar e canteiros de ervas aromáticas comunitários nasceram no dia 26 de março nas Hortas Urbanas de Setúbal, localizadas nos Viveiros Municipais, fruto do trabalho partilhado de vários hortelões.

À hora agendada para o início da iniciativa, nove da manhã, já a GNR marcava presença nas Hortas Urbanas, através de João Matos, o primeiro hortelão a receber um lote quando o espaço entrou em funcionamento, em 2013. Apesar de não gerir nenhum lote atualmente, o militar aproveita as folgas para participar em iniciativas que o voltem a ligar ao cultivo da terra.

“Toda a vida estive ligado à terra. Quando tive aqui a minha horta, era um passatempo. Nem sequer plantava para consumo próprio. Fazia todo o tipo de experiências. Cheguei a ter inhame, gengibre, feijão-preto e castanho e até coisas mais estranhas, como milho de 22 cores”, partilha o militar de 46 anos, agora mais dedicado à prática do desporto.

Mas com atividades como a de dia 26, João Matos gosta sempre de voltar, até porque nunca foi capaz de se separar em definitivo das Hortas Urbanas.

A engenheira municipal Elisabete Mesquita conduz a iniciativa que, logo nas primeiras horas do dia, conta já com uma dezena de participantes.

O objetivo é plantar um pomar comunitário, gerido pelos hortelões daquele espaço da autarquia, “de maneira a incentivar a proximidade entre os gestores de lotes nas Hortas Urbanas e a partilha de conhecimentos entre eles”.

Em dia de aguaceiros, o clima oscila indeciso entre um sol brilhante e surtos muito fugazes de chuva intensa. Em plena paisagem urbana da cosmopolita Setúbal, cheira a terra viva, pronta para o cultivo, e galochas enlameadas cerram fileiras no chão que aguarda o trabalho das enxadas.

A incerteza meteorológica não afasta os participantes, que a meio da manhã já se aproximam das três dezenas. O grupo conta com todo o tipo de proveniências. Desde os que aparentam ter raízes intrinsecamente rurais, aos que não disfarçam os alicerces marcadamente citadinos. Todos trabalham em conjunto, crianças incluídas.

Luís Costa, 43 anos, confessa que as suas origens estão mais na cidade, mas que isso não o impede de querer criar ligações à terra.

Juntamente com o filho Rodrigo, 8 anos, preparam-se para a primeira parte da atividade da manhã, a plantação do pomar comunitário, onde em breve irão brotar maçãs riscadinhas, laranjas, maracujás, entre muitos outros frutos.

“A terra é muito importante para a família e esta manhã está a ser ótima para aprender imenso”, resume Luís Costa.

O jovem Rodrigo, que chega a desabafar que teria preferido estar noutro lugar – inicialmente mais cativante do que o desafio que acabou por ter de aceitar –, é dos mais ativos no grupo. “Gosto disto”, resume, sem conseguir tirar os olhos de uma pá que tinha ficado de ir buscar para plantar a próxima árvore.

O cultivo não é novidade para o petiz, entretido a ajudar o avô Francisco, natural de Moncorvo, gestor de um lote nas Hortas Urbanas e que também marcou presença na atividade daquela manhã.

Luís Costa completa este quadro: “Na horta do avô, já plantou várias coisas, como pimentos e couves. Tudo isto é ótimo para ele e que vem, devo dizer, do lado da família da minha mulher, mais ligada a estas atividades. No fundo, acaba por ser uma atividade para toda a família”.

Catarina Mourão, mulher de Luís, também aparece nas hortas, ambientando desde já o membro mais novo da família, ainda de colo e nascido no verão passado.

Depois do pomar comunitário, seguem-se as ervas aromáticas, a plantar num terreno poucos metros ao lado.

Nesta fase, a curiosidade do grupo de hortelões recai principalmente na identificação das ervas. Tal como as árvores de fruto, estas são provenientes dos Viveiros Municipais, onde brotaram antes de chegar ao destino final.

“Este é que é o ‘pilreiro’, não é?”, pergunta Luís Costa, ao mostrar na mão um vaso a um auxiliar da Câmara Municipal. “Sim, é isso, chama-se ‘pilriteiro’, mas é isso”, corrige, com humor, a aproximação do participante citadino.

Coordenado por Elisabete Mesquita, o grupo prossegue com as plantações, repartindo-se por todos a gestão dos esforços necessários.

A Câmara Municipal vai continuar a promover a partilha de conhecimentos e a convivência entre os utilizadores das Hortas Urbanas.

Em abril, seguem-se duas formações, uma sobre fertilização, conservação e melhoramento do solo, a outra, sobre controlo e preservação de pragas hortícolas. O urbano Luís Costa já se inscreveu em ambas.

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